quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Acordando antes da vizinhança

Imagem da Internet

Ela acorda cedo, abre a porta e vai pra fora de casa, sentir o perfume da manhã que se esbanja pela rua. 
Sentir...
O cheiro do café que corre desgovernado pela vizinhança, entrando narizes adentro.
O cheiro do cachimbo do velhinho, que vê na fumaça ameaçadora os tempos de glória, em que era garoto.
O barulho das vassouras espantando as folhas amareladas para longe e a algazarra inconfundível das andorinhas.
O ruído de algum rádio sintonizado nos jornais da manhã que contam tudo que aconteceu enquanto se dormia e tudo que vai acontecer no resto do dia.
Mas ela acorda cedo mesmo, para ouvir o barulho das fechaduras, as portas se abrindo e a rua novamente ficando animada. Crianças sentadas nas calçadas, mães a dar " banho de sol" nos seus bebês, e maridos saindo para mais uma jornada.
Cores, sabores e formas, agora se misturam e começa mais um dia normal... Ela com seu cabelo emaranhado e pijama de desenho animado, finalmente levanta.
Parece que a rua lhe confessa que já é hora de também fazer parte desse cenário...




Cristina Lira




Um novo caminho







Passadas de uma multidão
Para onde seguem?
Por que choram?
Alguns caem e não conseguem mais levantar
Ninguém os levanta, 
Imersos em algo que se poderia entender por dor
Ou apenas estão seguindo seus instintos
Salva de gritos...desesperados
Multidão cercada agora, ilhada
Raio que tece devagar sobre suas cabeças
Levantando os caídos
Consolando os que choram
E dirigindo-os a um novo caminho.


Cristina Lira

A última lágrima

Imagem da internet

Aqui estou eu
Lançando-se em um sempre dentro de mim
Com todos os nomes e nenhum deles
Firme na caminhada como uma bússola
Apontando para todas as direções
Qualquer uma delas levará a algum lugar
Mas poderá não ser o lugar ideal
Acalmando a chuva com o desejo de sonhar novamente
Bebendo do cálice que vai passando
Mas não deixando-o chegar ao meu coração
Eu vômito o liquido novamente
Esperança ainda estará aqui como sempre esteve
Não ficará meu corpo preso na flor que murcha
Contando...um...dois..três
E acelero os passos, o delírio é meu ou não pertenço a essa realidade
Corrente lançada e prendendo meu pescoço
As mãos...e digo não
Correntes nos pés
E digo não
Respiração tomada aos poucos...e digo não
Rebatendo até o ultimo segundo depois paralisia
A única coisa que se move é a lágrima
Que desce num canto do olho
E contorna minha face... e eu digo não
Desejo sonhar com todo meu coração
Romper as cadeias... e agora paralisada
Banhada pela lágrima pura que rola na imundície
Do piso corrompido...
Navegando agora de volta pra casa
Para a casa que nunca estive, mas sabia que era minha.


Cristina Lira