quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Aquecer com o coração,a parte fria da vida





Era uma noite de inverno.
O vento passava pelas frestas das portas e invadia qualquer espaço onde o calor se concentrasse. As ruas estavam silenciosas, ouvia-se apenas o farfalhar de alguma folhas. As luzes das casas aos poucos se apagavam, sinalizando que era hora do descanso para repor forças para o dia seguinte. Madrugada extremamente fria, fazia com que cada um se agarrasse ao maximo a sua coberta. Outros de encolhiam em suas camas. Outros se enrolavam sobre si, formando logo uma pequena pessoa. 
Em meio aquele ar frio, alguem apertava entre os seios, totalmente enrolado, um belo menino, de poucos anos de vida. 
Maozinhas avermelhadas, olhos que hora se abriam, hora permaneciam fechados. Corpinho aquecido pela manta branca que lhe envolvia o pequeno corpinho. Aquela que lhe carregava, trajava um vestido de tecido leve como a brisa, cabelos curtos e umedecidos pelo clima, e uma tosse insistente quebrava o silencio por onde passavam. E enquanto caminhava entre as ruas, notou que uma pequena casa ainda permanecia com uma pequena luz acesa. E que uma senhora, no balanço de sua cadeira, fazia uma leitura. Uma mão sustentava o livro e a outra, por vezes levava a boca uma pequena xicara com um liquido esfumaçante. 
A mulher olhou para seu pequeno filho. Contemplou seu rosto todo sorridente. Tão leigo aquela situação! abraçou-o! Ele neste momento, apertou o dedo polegar da mãe, com sua pequena força. A mulher inspirou, e logo em seguida, por conta do esforço que fez na inspiração, teve um acesso de tosse. Logo que passou, resolveu então, ir aquela casa tão convidativa. Não poderia deixar que seu bebe ficasse doente.
Timidamente foi até a porta da casa daquela senhora, e de leve, deu algumas batidas na porta.
A senhora calmamente e com ar interrogativo, largou o livro e a xicara sobre a mesa. Olhou pela janela lateral e viu que bem na frente de sua casa estava uma mulher com um bebe nos braços. Procurou não se questionar tanto e foi abrir a porta.
A mãe, depois de pedir desculpas pelo incomodo, pediu com bastante humildade que ela ficasse com seu bebe, pois a noite estava fria, e a manta não seria suficiente para aquece-lo durante todas as outras noites. A senhora, limitou-se a não perguntar nada naquele instante, e foi logo dizendo que não poderia ficar com a criança. Mas a convidou para entrar e agasalhou aquela mãe que precisava de cuidados e lhe serviu um pouco de sopa que sobrara do seu jantar.
Enquanto isso sustentava o pequeno garotinho e elogiava sua esperteza e os olhos curiosos que não paravam de analizar tudo naquela casa, em especial no rosto daquela senhora.
Após isso a senhora lhe ofereceu dormida, e lhe falou de coração sincero. Jamais abandone seu filho, pois este é a prova de que pelo amor nascemos, ou pelo menos para amar nascemos. Não entregue o que de mais precioso você tem. Peça ajuda, bata porta a porta, mas não saia entregando os pontos nas situações dificeis. Sei que não é facil seguir nos caminhos espinhosos, principalmente quando se tem a responsabilidade sobre uma vida. Mas haja o que houver, jamais abra mão de lutar, seja por sua vida ou pela vida daqueles que você ama.
A mãe em seu intimo, se arrependeu da atitude de querer dar seu filho, mesmo que o amasse muito. Mas a verdade é que ela não via meios pelos quais poderia seguir. E olhando para a senhora que a acolhera, agradeceu sua hospitalidade e sinceridade. Prometendo que jamais abandonaria seu bebe, seja pelo que fosse. Prometeu ainda que de manha cedinho não incomodaria, e logo que o sol nascesse iria embora. Mas sempre seria eternamente grata pela atitude tão generosa da senhora.
A mãe se acomodou numa das tres camas existentes no quarto, e a senhora voltou a ler seu livro calmamente. O dia acordou com leves raios de sol, ainda que fosse uma manha fria.
Ao se aprontar para sair, a senhora gentilmente a chamou para tomarem café da manha e conversarem um pouco. Contou-lhe que era costureira e que há dias vinha pensando na possibilidade de contratar alguem para ajudar no serviço. E deu aquela jovem mãe a proposta de um trabalho, pagaria pelos serviços, mas não precisaria se preocupar com casa e comida, poderiam morar juntos e assim a senhora não se sentiria tão sozinha, e além do mais, poderia ajudar na educação daquele pequeno tesouro, o bebe lhe conquistara o coração com os tantos sorrisos e olhares curiosos. Verdade que naquela madrugada fria, a vontade de fazer o melhor pelo proximo, fez com que nascesse uma forte amizade entre aquelas vidas. Anos depois, o pequeno bebe se tornou um homem de principios e coração sincero, e a história de como a senhora, a quem chamava de madrinha, acolheu sua mãe e deles cuidou, lhe despertou no coração o ardor de assim também agir com o próximo. Bem sucedido financeiramente, optou por construir uma grande pousada, onde aqueles que ali passassem, principalmente na epoca de inverno, poderiam dormir, se agasalhar e aquecer o corpo com alimento. Nessa grande pousada  havia tambem uma sala grande e vazia cheia de janelas, um espaço onde aqueles que também quisessem aquecer a alma poderiam ir, um lugar reservado a oração. E aquela grande pousada abrigou a muitos, socorreu a outros... Mas o importante não é o que as aparencias mostravam, mas o amor que movia as pessoas, mesmo aquelas que não se conheciam, e tudo pelo prazer de ajudar, de servir, e contribuir para que ninguem desistisse da vida de ninguem. Um elo se formava,e logo todos percebiam que eram responsaveis por suas proprias vidas, mas que também podiam contribuir com o melhor de si para a vida do proximo. Não importa que seja algo grande ou pequeno, sempre podemos fazer algo por alguem, desde acolher ou apenas incentivar a seguir e continuar lutando. Nós sempre podemos realizar aquilo a que nos propormos de coração.


Cristina Lira