segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Amor da cor de canela





Apressou-se para recolher o que restara daquele parto indesejável, desprezível e arruinador (palavras que repetia em sua mente). Pegou o corpo forte, que insistia em viver, pele morena. Um lindo menino cor de canela, mãos fechadas, como quem guarda algo em segredo. Fitou-o por alguns instantes, e como quem joga fora um antigo objeto, movido pela duvida de guardar mais um pouco ou desfazer-se logo, decidiu e fez, o que há muito já havia planejado para esse momento. Envolveu-o em tecidos velhos, surrados, e o deixou ali...  A mercê da própria sorte. Saiu sem olhar pra trás, apenas saiu. Algumas vezes o caminho a frente pode ficar longo demais, quando se olha pra trás. E se foi, e sumiu junto ao crepúsculo que sumia. E o lindo menino cor de canela, quietinho, quentinho, mantendo-se sabe –se como, resistindo sabe-se lá, as adversidades do ambiente. Há alguns metros alguém de andar cambaleante, pulsante de dor, cabelos longos e negros, olhos lagrimejantes, alagados de dor. Sem esperanças, e já nem esperava. Andava como se carregasse toneladas de concreto nas costas, mãos vez ou outra na face para afastar as lágrimas que a impediam de enxergar o caminho.  Repetia para si mesma o quanto era sozinha, miserável, indigna...e que jamais sentiria felicidade, pois esta jamais a conheceria. E assim caminhou, até que o sofrimento a fez desfalecer, e por fim caiu em terra. E a noite seguiu, madrugada mais fria do ano. E antes mesmo de o sol erguer-se, tornou a abrir os olhos, dessa vez não com olhar de dor, ou frustração...mas de desespero misturada a espanto, e uma serie de perguntas caindo-lhe sobre a cabeça como se fosse uma enxurrada. Viu que bem junto a seu corpo, estava de forma aconchegada um corpinho cor de canela, tão a vontade, como se o tivessem posto ali para uma fotografia memorável. E o tocou na face, e este quase que inconscientemente, desenhou um sorriso. Sorriso de olhos fechados, mas com os olhos do coração abertos. A única atitude que teve foi, pegar aquela pessoinha tão pequena e envolve-la, protegendo-o assim do frio daquela manha. E se questionou: “Eu te aqueci durante a noite, ou você me aqueceu e me salvou?” E naquela manha ela apenas segurou aquela criança, a quem pós o nome de Daniel. E recordou de sua infância em orfanatos, e no quanto teria sido feliz se alguém a tivesse a abraçado e falado de amor. E abraçou aquele menino mais forte ainda, à medida que o chamava de “meu filho”.

Ninguém precisa de uma razão pra viver, mais pode dá razões pra vida acontecer. E sem se questionar tanto... apenas viver, e viver e viver...


Cristina Lira