sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Um dia pra recordar



* P.S.: Baseado em fatos reais ( Homenagem a uma amiga querida)



Ela passou lentamente entre as lápides, olhando ternamente para algumas velas que reluziam ao sopro do vento. Ao chegar inclinou-se fracamente e deitou delicadamente um buque de rosas brancas, fazendo algumas reflexões e orações naquela noite quente em que se celebrava o dia de finados.
Ergueu os olhos ao céu que se derramava em estrelas. Ao passar as mãos sobre os cabelos, ouviu um choro abafado, meio que contido. Olhou para trás de si. E naquela noite quente, de céu estrelado, viu ajoelhado e chorando mansamente, o ser que lhe daria o abraço mais completo de sua vida.
Começaram a conversar, mas parecia que ele lhe segredava a vida, com uma confiança que sabia que não seria abalada. Abraçaram-se, e como quem quer presentear alguém com o maior dos tesouros, ele retirou um anel simples, mas que se tornou mais valioso que qualquer jóia rara, por vir cheio de sentimento, e a entregou como quem entrega uma vida. Junto a entrega o pedido de que este simples e humilde presente não fosse repassado nunca a mais ninguém, que guardasse pra sempre consigo, este anel era a forma de agradecer pelo consolo que ele lhe oferecera naquele momento de consternação.
Não! Não foi só isso...sairam daquela esfera fria  e mórbida e começaram a caminhar como se fossem amigos, grandes amigos...enamorados!
Nasceu nos dois um sentimento que jamais seria vivido, apenas sentido e respeitado em seus corações. Mas ninguem pode dizer que não se amaram, seus corações são sabedores do quanto próximos foram.
Mas seguiram suas vidas... o anel guardado como jóia de incalculavel valor.
E num dia, ouve-se um barulho congelador aos corações, um trágico acidente.
Ele parte... seu corpo depositado do local que acontecera o tão estranho e inesquecivel encontro dos dois.
Ela dirige-se ao quarto, abre o porta-joias, e com os olhos lacrimejantes sustenta o anel...

Cristina Lira


Sapatos na bolsa






Terminou o ensaio antes do previsto, guardou na mochila os sapatos que a deixavam leve, sentia-se tal qual pena. Jogou a mochila num dos ombros e seguiu, a principio como quem tem hora marcada, mas antes da metade do caminho, uma profusão de pensamentos sobressaltou de sua mente.
Agora sem um lugar certo, apenas andava. Enquanto sua mente projetava um verdadeiro filme de ação diante de seus olhos... sua vida!
Carregava no seu ser tantas marcas que se perguntava sobre a sabedoria de ter tanto dentro de si, mas o mundo só conhecer o superficial. E isso é comum a todos, a todo tipo de gente...
E como quem desperta de um leve sono, aos sustos, aprumou-se no caminho, sacudiu a cabeça, prendeu os cabelos, e com um leve suspirar sorriu cinicamente para o mundo, ou talvez, para si. Num relance, fechou e abriu os olhos, e pensou: Tenho um mundo tão grande dentro de mim, ora paz, ora em guerras e conflitos constantes. Lugares só meus, que por mais que eu queira não saberia dizer aos outros de tudo que carrego aqui...meu mundo em guerra, agitado, uma confusão... e no entanto, tudo aqui fora tão normal!!!
Ninguém nunca saberá o que se passa aqui, se eu não falar ali... mas por enquanto é melhor deixar os " sapatos na bolsa"...

E no caminho das avenidas ela seguiu, sua imagem logo misturando-se aos demais, que provavelmente também seguiam monologando...

Cristina Lira