domingo, 6 de fevereiro de 2011

O íntimo do ser


Ele estava ofegante de tanto correr, as pernas feridas nas matas espinhosas. O que procurava? Um lugar seguro para sepultar seus medos. Daquele dia em diante decidira que não mais teria medos, e pôs na cabeça que iria sepulta-los bem longe.
Tentou jogar os medos na água, mas ao ver seu reflexo desistiu, imaginou que assim como podia ver-se na água, seus medos também poderiam vê-lo em qualquer lugar que houvesse água.
Quis então, sepultá-los na terra, até cavou uma funda sepultura, mas notou que por onde quer que andasse pisaria em terra, onde quer que estivesse, existiria terra debaixo dos seus pés. Irremediavelmente enquanto vida tivesse pisaria no solo e depois de morto iria se misturar ao pó da terra. Lhe assustou a ideia de conviver a eternidade sendo assombrado por seus medos, e desistiu de os sepultar no lugar que seria uma espécie de, descanso eterno.
Resolveu então escalar uma alta montanha, e jogar seus medos no ar, talvez os ventos os carregassem para longe. E também desistiu, pois concluiu que não era confiável crer no ar, pois os mesmos ventos que engolissem seus medos poderião muito bem vomitá-los novamente de qualquer uma das direções da terra. E teve medo de uma fatal devolução.
E já no cansaço de tanto pensar surgiu-lhe a mente uma brilhante ideia. Decidiu então, fazer uma grande fogueira e queimar cada um dos seus medos, e assim fez, mas na hora de entregar suas tormentas ao fogo, lembrou, que depois de queimar toda a madeira, restariam as cinzas, que poderia ser carregada pelo vento, cair na água, se misturarem com a terra, e novamente chegar até ele.
Seu coração batia desmedido, sentou-se angustiado e observou como o fogo se consumia sem piedade de si mesmo... ao olhar esta cena, lhe veio a solução que tanto procurara, resolveu pois, sepultar seus medos dentro dele, sem piedade, assim como o fogo, que se consumia. E sepultando o medo dentro de si, jamais correria o risco de recebê-lo de outra forma.
E assim fez. Enterrou em si todos os medos...e logo, sentiu-se leve, por entender que tudo que nasce dentro da gente, é lá dentro que deve morrer.

Por Cristina Lira

P.S.: Texto feito especialmente para o site da minha região, o Catingueira net.