terça-feira, 16 de novembro de 2010

As vezes a chuva cai enquanto caminho na estrada, por vezes sigo uns atalhos, mas nunca paro ou olho para trás, e jamais me perco, embora desconheça a terra onde pisam meus pés...(C.Lira)

Seguindo as pistas do amor - Parte I

                                 Por Cristina Lira


Saía do trabalho com um ar de "graças a Deus", com uma pasta numa das mãos e a outra balançando as chaves do carro.
Jonathan era um excelente trabalhador, um tanto solitário do ponto de vista amoroso, e do ponto de vista social é daquele tipo que os amigos sempre podem contar para um churrasquinho aos domingos.
Só que nos fins de semana, além dos churrascos, Jonathan faz algo muito especial, ele anda de hospital em hospital visitando leitos solitários, de encontro a histórias de pessoas esquecidas pela sociedade e pela vida.
Jonathan sente um prazer inexplicável fazendo isso.
E eis mais um fim de semana. Ele veste um jeans, uma camiseta listrada, pega um lápis e seu caderno de anotações.
- E vamos lá! Que história teremos hoje?
Indaga-se ao olhar-se no espelho.
Nem mesmo ele sabe ao certo quando começou a escrever histórias de vida de enfermos esquecidos em hospitais. Mas escrevia...e os "doentes esquecidos" sentiam-se felizes em poder compartilhar um pouco de suas histórias, e já nem se sentiam mais tão esquecidos assim, e entre sorrisos, lágrimas e palavras tudo fluia para o caderno de anotações com uma precisão invejável, nenhum detalhe era esquecido.
Ao chegar ao Hospital todos o cumprimetam e já avisam que há duas semanas chegara uma paciente chamada Nicole e nesse periodo de internação ninguém apareceu para lhe fazer nenhuma visita.
- Vamos lá! Hora de fazer alguém feliz! Diz Jonathan.
- Esse cara não tem jeito. Qual é a dele afinal? Comenta Dr. Bryan, amigo de longa data.
- Calma Bryan, não se preocupe, não estou, por hipótese alguma, pensando em montar uma clinica. Não vou roubar seus pacientes, vou salva-los dos seus sedativos...
E sai pelos corredores de encontro ao quarto em que Nicole está internada. Pela porta entreaberta ele, por alguns segundos, contempla o sono aparentemente tranquilo de Nicole, bem como sua beleza.
E esta, como se avisada no seu inconsciente que havia uma visita, desperta e fixa os olhos no homem a sua frente. Jonathan se aproxima com passos leves.
- Olá? Tudo bem?...meu nome é Jonathan! Qual o seu?
Passados alguns minutos nenhuma resposta ecoou, ele sentou numa cadeira ao lado da cama, próximo a um criado mudo, onde apoiou o cotovelo direito, e continuou.
-  Sabe, minha semana foi um caos. Bom, trabalho em um escritório de contabilidade, números, sabe...e nos fins de semana sempre venho aqui, converso com o pessoal. Estava passando, te vi sem visitas, e está na hora das visitas...bom...resolvi vir dizer um oi. Sou o Jonathan e você?
- Você pode pegar um pouco de água pra mim? Meu nome é Nicole. E não sou muito boa em diálogos.
- Sua água Nicole. Bom, porque você está aqui?
- Pelo mesmo motivo que tantos outros! Olha, você não é médico, não é psicólogo...trabalha com contabilidade...ainda não entendi em que posso ajudá-lo!
- É que todo fim de semana venho aqui e anoto histórias de vida, daqueles que querem contar, lógico, momentos que viveram, bons ou ruins...
- E porque faz isso?
- De certa forma estas histórias me trazem vida!
- Até mesmo as tristes?
- Essencialmente as tristes. Cada história se transforma em lições de vida pra mim, poesias escritas não com papel e caneta e sim com batalha, sonhos  e realidade.
- Deixe-me adivinhar! Você escreve neste caderno histórias de vida de pessoas que você nem conhece. Conversa algumas horas e pronto...nunca mais vê essas pessoas, e não procura saber se estão vivas, talvez mortas! Você só toma nota de palavras ditas na solidão de um hospital. E nada mais?
- É!
- E você quer saber algo de miha vida? Certo?
- Certo. Mas, entenda, não é obrigada a nada. Você estará coberta de razão se não quiser falar comigo, afinal, sou apenas um estranho, e talvez não lembre de você nas próximas horas...como pode ser exatamente o contrário...
- Tudo bem.
- Tudo bem? Isso significa que você tem algo a falar, desabafar?
- Meu Deus! Isso é puramente maluco. Vem cá, alguém já te falou que é um tanto maluco o que você faz?
- Já sim! E essa é a melhor parte, quando os outros começam a te chamar de maluco, significa que você está no caminho certo.
- Volte aqui, amanhã, as onze horas.
- Mas...Como? Amanhã? Mas porque?
- Não faça perguntas. Agora saia, quero dormir, não estou bem.
- Ah, claro! Então...até amanhã, Nicole.
E no dia seguinte Jonathan chegou com certa ansiedade. E encontrou apenas um bilhete sobre a cama do hospital, que dizia o seguinte:

       " Te espero hoje, as 17 horas, ao cair o sol no horizonte, na Ponte do Rio Manso. 
         Nicole.
         P.S. Tenho muito para falar!"

........CONTINUA!!!




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Tentativas



Tentativas de falar em vão, sobre o que nasce no coração. Já foram feitas todas as apostas, talvez ainda reste uma "carta na manga"... para se dizer o que já ficou subtentido, para terminar de trilhar a outra metade do caminho.
Algum detalhe parece esquecido, para que esse conjunto de tentativas não fique tão apagado e sim com mais vida e um melhor colorido, e assim, quem sabe possa ser notado todos os passos já dados e todos os esforços até agora realizados.
Ainda resta uma minúscula partícula de ousadia, que pede para ser levada a prática, nestas tentativas tão vagas de apenas falar sobre o que nasce no coração. É uma súplica de desapego a razão que por vezes surge para calar as vozes da emoção daqueles que têm medo de ir ao encontro  dos passos que não estão nem tão longe e sim por vezes ao lado...
(C. Lira)

Presságios



Esse vento que passa por você é o mesmo que passa por mim
O olhar que você me dirige, o retribuo de uma outra forma a ti
Esses encontros a você tão casuais, e a mim tão propósitais
São presságios de ondas que prenunciam o que não se quer
São pressentimentos de algo tão presente que se tenta esconder
E se mudarem a direção desses trilhos amavios o que se pode fazer...
(C.Lira)



Transforma-se o amador na cousa amada
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.
                                                Camões