quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Jogo do amor

Agora é tarde pra sair de fininho. As cartas estão todas a mesa, o jogo já se desenrolou faz tempo. Não adianta fechar os olhos e fingir que nada vê. Parece perigoso, é verdade! Mais perigoso ainda seria não cair nessa trama tão bem armada para nós.
É uma teia de aranha, não podemos sair, embora quisessemos!
É um espaço pequeno, mas suficiente para nosso mundo.
Agora é tarde pra cortar essa respiração ofegante, pra diminuir as batidas do coração, pra limitar-se ao limite no que é ilimitado.
Fiquemos apenas como estamos agora, pois já é tarde para irmos embora.
E todo esse silêncio contempla nosso calar e a escuridão insiste em ornamentar esse momento tão tarde de se abandonar.
Respira-se, transpira-se, move-se em nós tudo de forma algoz...agora é tarde, muito tarde, pra sair de fininho e não ver as cartas do jogo lançadas à mesa. (Cristina Lira)

Meu bem


Meu bem tem sabor de vida, de esperança...
Meu bem tem um não sei o que que ninguem tem.
Ninguém nesse mundo todo se parece com meu bem.
Ele tem cheiro de chuva quando bate na mata e na terra seca.
Tem um sorriso parecido com de um anjo,
coisa que não existe nessas redondesas.
Meu bem quando anda parece flutuar
e quando fala é como um coro celestial a cantar.
Até suspeito que não por acaso, quando DEUS criava o mundo
o fez com cuidado, preparou um dia todo para que ele fosse criado.
Meu bem quando me toca é brasa que levanta fogueira
Quando se afasta é cinza que vira poeira.
Com meu bem sou dona do mundo
Fada, anjo, bruxa e feiticeira. Cristina Lira

Ele


Ele usa jeans e camiseta surrados pelo tempo.
Ele usa um penteado fora de moda.
Ele come sempre do que sobra.
E ele tem tantos sonhos...

Ele tem a pele queimada pelo sol.
Tudo que ele queria era um teto.
Uma família e um pouco de afeto.
E ele tem tantos sonhos...

Ele sonha com um salário minimo todo mês.
Caminha por todas as avenidas.
Pedindo um pouco de comida.
E ele tem tantos sonhos...

Mas carrega consigo muita esperança.
Acreditando sempre que tudo pode melhorar.
Jamais desiste de lutar.
E ele tem tantos sonhos.
Cristina Lira

C.Lira

Involuntários

Estrada que conduz pessoas e as abandona em caminhos de gelo e faíscas abrasadoras.
Pessoas que caem aos pés de altares como medida de refúgio, e lá também encontram sepulcros.
Sangue derramado sem permissão, de mulheres cortam os seios, de homens as mãos.
A altura das portas é um universo e a pintura tão primitiva...
As árvores de galhos secos, folhas sem clorofila.
Amputam-lhes os direitos, sendo sepultados e enterrados vivos.
Por milagre alguns escapam, mas o que viram gravado na mente fica.
Corrida de sangue em prol de um vazio que destrói a vida. C. Lira

Amor além da morte



Hoje levei flores ao seu túmulo.
Reguei as rosas que plantei há alguns dias.
Deixei-te umas e outras lágrimas, não para que as sepulte contigo, mas para que renasça com elas.
Não têm sido fácil esses dias desde que você se foi. Minha vida até parece já não me querer mais. Pois minha vida sente saudade da tua vida.
Em nossa casa todas as nossas lembranças, em minha mente tudo permanece igual, até você.
Minha morada agora é onde tu moras.
Continuarei vivendo porque há em mim uma parte tua de vida que não pode morrer.
E este abismo mortal que nos separa, me trás frio por não ter teu corpo quente e teu afago agasalhador aqui, comigo.
Tua partida tão precoce me deixou aqui tão pobre, pois aqui nada há de meu, já que você era meu tudo.
Mas sempre te trarei rosas e lágrimas. Para que lembres sempre do nosso perfume e não se esqueças da nossa vida.
Mas me deixastes um pequeno diamante que cresce cada dia mais, e o meu nada sem ti já não fica tão vazio. Partistes do alcance dos meus olhos para renascer dentro de mim. E toda essa sombra que você me deixou quando se foi, cede lugar para um pouco de luz. Um anjo que se ergue para me socorrer por todo esse tempo que viverei sem você.
E carregarei sempre comigo os anos que vivemos juntos, seguirei com os nossos planos. Dizem que o amor verdadeiro é forte, ele não cessa depois da morte.
Amanhã estarei aqui e te trarei rosas e lágrimas...
Cristina Lira