sábado, 16 de outubro de 2010

Ouse ser você!

Não se isole nesse mundo que você acabou de construir. Não que seja necessário mudar alguma coisa. Mas não há porque fugir tanto e se esconder. Hoje te vejo aqui, amanha já nem sei.
O que tanto temes? Porque prendes tanto os pés ao chão?
Talvez tenhas medo da forma como tudo pode acontecer, mas o futuro é tão longe, para que ficar tentando adivinhar como tudo vai acontecer.
Apenas desate todos esses nós que te prendem ao nada.
Você não pode viver  a vida inteira baseada no passado ou no que pode ser o futuro. Olhe bem a sua frente, não será dificil ver o quanto é interessante e prazeroso o que tem diante dos olhos. Esse ato de se esconder e sumir por vezes só demonstra fraqueza, não há porque se refugiar neste mundo que só cabe você. Retire os pés desse seu chão, veja que há um espaço para todos nós, e para nós.
Não tema. Tudo fica fácil quando não se tenta adivinhar como algo poderia ser, ou como poderia acontecer. A essencia está escondida justamente no ato de experimentar, vivenciar e sentir.
Abandone essa casinha antiga e cheia de teia de aranha. Espie só!Existem pessoas te esperando do lado de fora deste mundo no qual está embutido.
Ouse, autentique-se...mas não fique assim, deixando os dias e as pessoas passaram na sua frente, pare-as e acompanhe-as. Saia dessa casinha que você vive e feche a porta para sempre.
Pare de se esconder de você mesmo!
Cristina Lira

Os bastidores

Passaram quase que despercebidas. Por duas vezes, cada uma com a sua intensidade. Não sei se de propósito, mas estavam lá. Dando o ar da graça ao céu, fazendo-o ter movimentos perceptíveis a terra. Carregaram junto a elas dois pedidos, como se é de costume. Talvez não só fossem esses dois desejos, mas inúmeros.
Este foi apenas um momento de distração em uma conversa, onde um dos participantes ergueu os olhos ao céu. E pode notar a sincronia que ocorria ao redor, enquanto a conversa se desenrolava.
A conversa não parou, suas observações, sendo estas agora com certa curiosidade, também não cessaram.
Observou também que o ar que quase parecia não existir, circulava lentamente, sendo quase impossivel senti-lo. Mas estava ali, talvez espiando a conversa que continuava a fluir. As sombras da noite se esparramavam no chão, nas paredes e nas pessoas que conversavam. E se enroscavam com a luz, dando uma decoração esplendorosa nos espaços em que ficavam registradas.
O céu, o ar, as sombras, as luzes, pareciam não estar por um acaso ali.
Estavam mesmo a fim de compor os bastidores daquela história que estava apenas começando... (C.Lira)

Amor, infinito em mim.

Sufoca-me esses teus beijos tão desmedidos, tuas manias  e gestos tão desregrados. Mas o estar junto, o saber que amanha de manha te verei levantar, arqueia-se por todo meu rosto um sorriso, que emito quase inconscientemente.
Em todo esse tempo você tem sido o motivo dos meus descontroles, dos meus risos, choros... e teu toque meu melhor calmante. Em seus braços sinto que tudo é tão infinito, e quando você me envolve, sei que não poderia ser mais feliz.
Por você correria todos os riscos possiveis, reviveria todos os momentos...
Eu te defenderia de todas as guerras que travassem contra você, e quando me acordas delicadamente de manhã, me faz ter certeza de que agiria certo.
Te olho sem limites, quando você para no tempo e fixa-se no vazio, e me pergunto, como pude ter sido salva assim. Seu jeito de ser é por vezes intolerante, mas ainda assim, o ser que amo. E quando você sorri pra mim, todos os nossos problemas parecem nem existirem, porque você é assim, infinito em mim.
E quando você me toca, me rendo, pois sei que estou segura, posso fechar os olhos e amanha de manha ainda estarás aqui, deitado ao meu lado. E eu que pensei que estivesse perdida.
Aquele toque de mão, durante aquela fina garoa. Aquela voz que me invadia aos ouvidos, dizendo: ...por favor, que horas são?
Era fim de tarde, me recordo muito bem...e a garoa fina se tornou uma tempestade que tratou de unir nossos caminhos. E hoje, a cada minuto das horas, sinto, o quanto você é infinito em mim.
Amor, infinito em mim! (Cristina Lira)

...tentativa de fuga

Afastem-se o medo e o horror que me impedem de tentar. Afastem-se todos vocês que insistem em dizer que não vou conseguir, que não sou capaz.
Não me transformem em alguem que não sou. Não me leve a sério demais, mas também não ria de mim. Carrego dores tão sofridas, minha pele está marcada por cicatrizes, que me continuam a ferir. Meu ser está desfigurado e meu caminhar já é demais torto.
Portanto, não queiram que eu tenha um jeito que lhes agradem, não vou me sacrificar mais para vê-los sorrir.
Não me toquem, não me persigam. Apenas me deixem viver e não se importem com meus dias.
Meu corpo ainda em vida apodrece, pelas energias que chegam e acidificam meu ser. Neste mundo de vida onde mal se pode viver como se quer, onde do honorável ao miséravel, todos somos como que expiões. Infortúnios no sopro de vida dos outros e o nosso próprio sopro perdemos aos poucos.
Afastem-se todos e deixem-me respirar o ar que sobe da terra depois do sereno da tarde.
Afastem-se, abram espaço, para que eu possa aprender a andar.
Fechem seus olhos, pois tenho pesadelos com eles, por me perseguirem todos os dias, noites e madrugadas.
Afastem-se pessimistas, meu otimismo quer passar! (C. Lira)

No outono não estarei aqui

E de mim escorre, na superficie, o sangue que deveria estar dentro de minhas veias.
O sopro de vida parece evitar-me.
Toda vez que você chega, tão dono de tudo.
Mas não será sempre assim, não estarei todos os dias aqui.
Quando a folhas cairem, quando o outono chegar, estarei a milhas daqui.
Congelando, sei...,por estar distante de você.
Mas, para que preocupação, se depois deste espaço sempre nos reencontramos, e não existo em mim. Porque se me tomas, não tenho noção do espaço. Apenas curto as sensações, que mal há nisso.
Mas, uma vez mais, o outono virá, e ao cair das folhas sempre irei partir.
E como uma cina, retornarei. É um ciclo que não pode ser rompido.
Quase uma maldição, sempre partirei no outono, pra voltar na primavera. (C.Lira)